sexta-feira, 26 de março de 2010

Mulher, Negra e Lésbica

Vinte de junho, dia esplendoroso, o sol já ensaia sua despedida às 5 da tarde, e Cláudia chega ao campo santo. Dia de relembrar o seu pai, o túmulo é o mais simples possível, uma laje caiada branca. Apesar de ser algo muito fora de moda, ela fez questão de colocar no túmulo uma foto de seu pai com ela abraçada. Como se um pedaço de si estivesse ali permanecido. Neuroticamente, ao depositar as flores ela se lembra das palavras da sua psicóloga, olha só a inconveniência! " Não se apegue ao passado, viva o presente. Se você se centralizar no HOJE, todos os sentimentos do passado se dissiparão..." E realmente ela sabia que não deveria se remeter a sentimentos do passado, a saber: o desespero, a solidão, idéias perniciosas sobre ser negra, fazer parte de uma minoria sexual e a vida seria muito melhor se ela não fosse nenhuma dessas coisas, e depois de tudo, como ela viveria sem o pai e com todo esse peso sobre seus ombros?

"Esqueça de mim", dizia seu pai, " se algum dia eu te faltar, não olhe para trás, não terei mais existido, pense que você é capaz de viver sozinha, sim! Todos nós somos. Criamos a ilusão de que a vida é impossível sem ter determinadas pessoas, isso é uma grande hipocrisia, não há nada nem ninguém que não possa ser esquecido". Palavras duras, proféticas, obviamente ainda muito difíceis de aceitar. Fáceis de entender, se lembrarmos que a mãe de Cláudia morrera no parto, e seu pai a criou sozinho. Importava vacinar a filha contra uma eventual e irremediável perda. Assim é Cláudia, uma força que parece inesgotável renovada a cada dia. Tudo às custas de um esforço constante de debelar as programações sobre fatores desfavoráveis. Desfavoráveis porque a sociedade o quer, como veio a lhe ensinar a psicóloga.

Não há distinção entre uma contradição individual e uma contradição social. No embate interior atuam as mesmas forças antagônicas de uma sociedade em conflito, contraditória, hipócrita, mentirosa, cruel. As orações passam ao largo, e a visita ao túmulo vira pretexto para reflexões libertadoras, ou não tão libertadoras...

Saindo do cemitério, Cláudia volta à condição normal, em companhia apenas do seu próprio eu. Lembrou-se de que faria aniversário na semana seguinte, 32 anos. Provavelmente ninguém ligaria. Não tem importância, ela mesmo não liga pra ninguém, de ninguém sabe a data de aniversário. Talvez o Carlos ligue... O Carlos! Quantas saudades! Já faz uns 7 anos que a gente não se vê pessoalmente... Como eram bons aqueles tempos...!

Da metade da faculdade pra frente, sua vida deu uma guinada. Estava cada vez mais empolgada com a advocacia, seus esforços começavam a se coroar de êxito. A vida continuava dura, trabalhava de dia e estudava à noite, mas aprendeu que mesmo assim dava tempo de curtir a night. A cidade era Florianópolis, que desde os anos 70 concentrava grande contingente de homossexuais. Conheceu nos bares o Carlos, um carinha maravilhoso, extrovertido e muito bom confidente, e seu namoradinho Ulisses. Conheceu Kátia, que lhe devolveu a fé nos relacionamentos num momentos em que ela tinha como certa sua eterna condição de solteira. Principalmente, Kátia insistiu até a exaustão para que Cláudia iniciasse a psicoterapia. Apesar do momento favorável, suas angústias interiores ainda a impediam de viver plenamente a vida, e demorou para que Cláudia conseguisse aceitar isso. Sempre auto-suficiente, Cláudia relutou, mas o processo de mudança, auxiliado pelo amor da namorada e dos amigos, fez com que Cláudia sentisse naquela época um felicidade que nunca antes havia experimentado.

Nunca mais esqueceria aquelas noites, com certeza foram mais de uma dezena de fins de semana nos videokês e danceterias. Uma vez, praticamente bêbada, subiu na mesa e gritou: "Sou gay! Com muito orgulho e sem rancor!" Guardaria bem essa frase em seus pensamentos, que lhe ajudaria nos momentos difíceis...

Antes de Kátia, o seu grande amor havia sido Yolanda, outra ferida aberta no seu coração. Paixão de adolescente, tivera muitas relações sexuais em pensamento, mas de fato ela tinha sido sua primeira mulher (o primeiro homem ela fez questão de esquecer). Por causa deste sentimento, contou para seu pai sua definitiva opção de ser homossexual (o termo " orientação" ainda não era o mais difundido...). Foi um choque, é claro, a maior ironia foi que ele fizera um enorme esforço para ser aberto com relação à sexualidade, falava de todos os assuntos e fazia todas as recomendações cabíveis, contando que ela fosse fazer com homens, é lógico. Depois de alguns meses já estava completamente acostumado à idéia...

Mas isso não significou o fim dos desafios de Cláudia, pelo contrário, pois sua namorada era pra lá de problemática. Tinha depressão, não se aceitava, e um belo dia Cláudia descobriu que Yolanda estava usando drogas. Foi o pretexto para o fim de um relacionamento que já não fazia bem a nenhuma das duas. Mas com certeza uma grande perda para Cláudia, que demorou muito a ser reparada. Hoje ela divaga sobre qual terá sido o destino de sua amada ex. A última notícia era que ela se casara com um médico, e se mudara para Porto Alegre. Como ela estará agora? Jamais se esqueceria dela completamente...

Neste mesmo ano, em que estava se formando no colégio, seu pai morreu. Foram meses de indizível sofrimento, e de muitas dificuldades para se manter literalmente sozinha no mundo. Uma tia a ajudou no início; apesar da tragédia passou no primeiro vestibular para Direito na Universidade Federal. E aí Cláudia descobriu sua vocação, não só porque tinha um prazer mórbido em decorar leis, mas principalmente para resolver problemas, buscar soluções, brechas na lei, defender os menos favorecidos pela sociedade. Passou a defender causas na vara de família: processos de pensão (enfadonhos, exaustivos), disputas a respeito de guarda de filhos. Nunca teve o menor pendor para a maternidade, mas se compadeceu pelas crianças.

E o destino a levou para uma função, no mínimo, inusitada e muito nobre: hoje trabalha num escritório de detetive particular num prédio velho da Felipe Schmidt, onde se dedica exclusivamente a buscar crianças desaparecidas. Pagam-lhe bem, porque ela faz coisas que poucos imaginam ser possíveis...

Chega em casa. Dá-se conta que já está escuro, nem tinha notado que já chegara o inverno. Mesmo com o frio, faz questão de abrir a janela para sentir o vento sul e observar o mar de Coqueiros. Do seu quarto ela vê a Ponte Hercílio luz. Sente-se bem, em harmonia com o astral da cidade. Na sua cama ela vê que há uma ligação no seu celular. “Que bom, é o Carlos! É agora ou nunca! Vou já ligar pra ele..."

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